A era do capitalismo está passando… não rapidamente, mas inevitavelmente.

Essa é a frase de abertura de Sociedade Com Custo Marginal Zero, de Rifkin (2014). É um bom início para o argumento que desenvolve no resto do livro: lentamente, e provavelmente até o meio do século, o capitalismo será suplantado pelo que chama de “Collaborative Commons”, a economia do compartilhamento, do prosumidor.

O termo prosumidor vem da aglutinação de “produtor” “consumidor”, e indica exatamente isso. Num mundo de Uber’s, AirBnB’s, impressão 3D e tecnologias distribuídas, esse é uma personagem econômica de relevância crescente. Um indivíduo que vez consome, vez produz um dado bem. Esse será o protagonista da economia do amanhã.

Pelo menos de acordo com Rifkin, entre outros.

Dizem: “A revolução não será centralizada” (cjdew 2015).

Embora otimista, a visão de que nas próximas três décadas teremos um novo modelo econômico mais democrático, mais distribuído, tem evidências provocantes, na forma de mercados que cada vez mais abrem espaço para esse modelo. O mais novo capítulo dessa história (que já havia sido previsto, em especial por Rifkin (2014)) é o da produção distribuída de energia, ou das microgrids.

Em termos simplificados, uma microgrid é um modelo de produção e distribuição de energia alternativo. Hoje, dependemos de grandes produtoras de energia, na forma de titânicas hidrelétricas, usinas gigantes de queima de carvão, produzindo energia que é transportada por redes de fios que atravessam países. A alternativa são as microgrids: pequenos produtores — um vizinho que tenha instalado painéis solares, e talvez tenha um excedente de produção — podem vender e transmitir energia a consumidores próximos, no espírito de uma redes P2P.

Já discutimos centralização versus descentralização neste canal. Aliás, é um assunto em que todos os nossos posts tocam, de uma forma ou de outra. Não precisamos entrar nos detalhes para ver que o sistema de distribuição centralizado de energia é ineficiente. Transporte de longa distância implica em perdas altíssimas de eficiência. Os Estados Unidos, por exemplo, aproveitam apenas 40% da energia gerada (“US Wastes 61–86% Of Its Energy CleanTechnica” [s.d.]).

Mas a microgrid, apesar de ser candidata a substituir um sistema fundamentalmente falido (“Exergy — a Revolutionary Energy Marketplace Through Blockchain, Transactive Grids and Energy Tokens. Exergy.energy” [s.d.], Electric Power Technical Whitepaper), também contava com um número de obstáculos, que só hoje estão sendo superados.

Do lado do hardware, queda em custos de painéis solares e medidores inteligentes está possibilitando a implementação da ideia muito profetizada da smart-grid (“Exergy — a Revolutionary Energy Marketplace Through Blockchain, Transactive Grids and Energy Tokens. Exergy.energy” [s.d.], Electric Power Technical Whitepaper). Do lado do software, mais uma vez blockchain está entrando na jogada.

Há dois usos principais para blockchain em microgrids. O primeiro, e o mais óbvio, é o de registrar transações de venda de energia. O uso clássico de um blockchain é o de manter o registro de propriedade, e isso não muda nesta aplicação.

Mas há uma outra necessidade no mundo da geração de energia. Cada vez mais precisamos mover na direção de fontes mais sustentáveis de energia.

Numa rede tradicional, não se pode distinguir energia gerada por carvão, de energia gerada pelo vento. Blockchain, e mais especificamente crypto-tokens, podem ser a infraestrutura sobre a qual se vão emitir e negociar certificados de origem dessa energia. Projetos como a Energy e a Energy Web estão propondo exatamente isso.

Exergy, em particular, foi a solução utilizada pela LO3 na criação da Brooklyn Microgrid, uma das microgrids pioneiras. Vizinhos negociam entre si (usando smart-devices ligados à Internet das Coisas (IoT), escrevendo as transações diretamente à blockchain da Exergy) os excedentes de energia produzidos por painéis solares instalados nos telhados da comunidade.

Há muitos detalhes técnicos envolvidos num assunto como geração de energia. Especialmente se esse assunto também inclui tecnologias novas como blockchain e IoT. Mas fora isso, há um tema geral se desenrolando nos mais diversos mercados: estamos saindo de modelos centralizados e construindo economias de compartilhamento, sistemas descentralizados onde o papel de produtor e consumidor se juntam naquele de prosumidor. Essa mudança, hoje, já parece inevitável. Resta decidir para onde queremos ir, e tomar uma posição proativa sobre a mudança.

 

Por Juan Meleiro

Leave a Reply