Por Carlos Minamoto

Conhecida por ser o delta do Rio Yangtze, Nanjing concentra uma das maiores densidades demográficas do território chinês. Com um volume populacional próximo à 8 milhões, a cidade ficou famosa no ocidente por estampar várias matérias sobre os diversos cemitérios de bikes pelo país – cenário comum em Shanghai, Wuhan, Xiamen, Beijing e mais tantas outras. Entretanto, entre os mais de 70 players no território chinês hoje, muito se discute sobre a viabilidade dos modelos econômicos da tríade modal: bikes compartilhadas, bikes elétricas e scooters. Com métricas extremamente rigorosas na operação e um cruzamento de dados dedicado na obtenção de quaisquer informações relevantes, o design é o fator primordial que determina se o modelo será lucrativo, escalável e consistente.

O design das bikes compartilhadas da Ofo

Fundada em 2014, a Ofo, grande promessa do setor, havia recebido investimentos da DST Global, Alibaba Group e Didi Chuxing e alinhou uma proposta de hiper-internacionalização com a inovação do modelo através das constantes atualizações user-centered. Utilizando comunicações divertidas e o aperfeiçoamento contínuo do modelo (ora recebendo melhorias no quadro, ora otimizando o desbloqueio), a startup expandiu para Singapura, Reino Unido e EUA.

Bikes compartilhadas da Ofo
Fonte: China Daily

Um fator proeminente do mercado chinês, no entanto, é que a concorrência torna o processo de disrupção muito mais rápido, o que exigiu que a Ofo mantivesse o passo da gigante Mobike (investida da Tencent) e da LimeBike (norte-americana do setor). Tendo isso em vista, a empresa foi responsável por conduzir boa parte das vanguardas no uso das bicicletas.

Em seus primeiros modelos (2014 – 2016), o desbloqueio funcionava ainda com uma trava simples e exigia muito mais na experiência do usuário com a inserção de uma senha para desbloqueá-la. A Aura 1.0, modelo lançado em 2017 e usado principalmente na expansão do negócio para outros continentes, possuía um GPS, o que permitia ao usuário encontrar a bike pelo aplicativo, ao invés de procurá-la em um local como antes. O novo modelo também usava um QRCode para desbloqueio, algo implementado devido à pressão da Mobike, que havia trabalhado em um modelo semelhante antes da Ofo.

Detalhe da bike compartilhada Ofo
Fonte: South China Morning Post

Além disso, a Aura 1.0 trazia consigo uma mudança no quadro, 3 câmbios diferentes, um raio aprimorado e, principalmente, uma cesta na parte frontal. O aprimoramento do design da bike se tornou, então, prioridade para toda equipe da Ofo, sendo lançados posteriormente um modelo para terrenos mais difíceis e outros aperfeiçoamentos. Assim, em alinhamento a sua proposta, a Ofo lançava a cada 6 ou 12 meses um novo modelo.

Design da bike compartilhada Ofo
Fonte: Techgoondu

A pergunta é: Por quê, mesmo encontrando um modelo “economicamente viável”, a Ofo lançou várias features em seus produtos? É coerente observarmos que o mercado enfim entendeu que o modelo de compartilhamento de bikes é mais centrado em dados do que aparenta – e não somente no quesito operacional, mas também no design de produto.

Para o unit economics ser viável é necessário que muitas bikes sejam produzidas e que seu custo operacional seja relativamente baixo (como exemplo o levantamento do CEO da Pony Bike). Dito isso, a Ofo levantou mais rodadas de investimento desde meados de 2017 – com o lançamento da Aura 1.0 – e, por consequência, em 2018, agravou o cashflow que possuía, fazendo com que suas operações praticamente encerrassem no começo de 2019.

Data-driven Design nas bikes compartilhadas

Apesar de a Ofo ter sido uma gigante que levantou mais de US$ 2.2 bilhões e mesmo assim não ter sido sustentável o suficiente, o mindset que construiu a organização permitiu que modelos como a Yellow e Grin pudessem existir na América Latina. Com a consolidação dessas empresas e da literatura sobre MaaS (Mobility as a Service), os trabalhos para entender os efeitos e aspectos da micromobilidade nas cidades estão se intensificando.

Patinete da Yellow
Fonte: Globo

Segundo estudo do GIST (Group of Research in Transport Systems), da Universidade de Cantabria, fatores como densidade populacional relacionados ao total de bicicletas, tempo de viagem, número de estações e o custo relacionado podem influenciar diretamente na distribuição de estações pela cidade. A alocação das bikes, o tempo de viagem e o design das bikes versus seu custo de produção também têm um grande impacto.

Vários fatores têm que ser levados em consideração ao mesmo tempo, por exemplo:

  1. Leis – Muitas cidades possuem leis distintas sobre como lidar com as bikes. Em países como a Colômbia e a Austrália, é obrigatório o uso de capacete, o que compõe um fator a mais na cadeia logística para as empresas de bike-sharing. Além disso, o Estado encontra dificuldade na regulamentação visto que boa parte dos planos municipais pelo mundo (até o começo dos anos 2000) não incluíam modais alternativos.
  2. Cultura – Países como a França e o Japão possuem uma cultura pacífica na relação entre carros, pedestres e bicicletas. Por isso, modelos de alta velocidade e de performance não necessariamente são prioridade das empresas de compartilhamento de bikes. Entretanto, há espaço para tal discussão em relação a implementação dos patinetes e de bikes elétricas – na França, por exemplo, o debate sobre o uso desses modais de alta velocidade em calçadas tornou-se relevante.
  3. Hábitos – Usuários com peso acima da média, uso em diferentes climas, sazonalidades, maior tempo de uso, maior tempo de deslocamento e intervalos de uso são exemplos de métricas que influenciam no papel que a bike possui. Visto isso, cada cidade possui uma demanda específica e entender esse modelo requer muita análise e anos de aperfeiçoamento.

Assim, é interessante observar os impactos visíveis decorrentes da adaptação das bikes às diferentes cidades, visto que encontrar um sistema que seja adaptado à realidade local diminui custos de manutenção, custos logísticos (principalmente em modais elétricos) e custos de execução e aprimoramento.

Um exemplo é a implementação da cesta, que permite, seguindo o pressuposto de que mochilas e outros pertences fiquem ali, diminuir o peso no quadro e o desgaste do disco de freio em até 30%. Usando do mesmo exemplo, a distribuição de peso permite ainda que haja uma geração de energia mecânica (além da solar, em alguns casos) mais eficiente, para sustentar o GPS e outros devices.

E quando analisamos os fatores de segurança, o para-lama adaptado, assim como os protetores para a corrente e os pedais, são essenciais para circunstâncias em que as bikes se tornam um modal relevante no transporte da cidade e menos exclusivos para modalidades esportivas.

Nova geração de bikes compartilhada da Jump
Fonte: TechCrunch

Nesse sentido, esses fatores não só impactam no custo de produção de uma nova bike, como também no seu tempo de vida e desgaste, provendo mais eficiência na reposição de novas bikes e implementação de features cada vez mais assertivas na adaptabilidade da bike com a cidade e o usuário.

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