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Insurtechs e a transformação do mercado de seguros

By 6 de junho de 2019 junho 18th, 2019 No Comments
Entrevista

Insurtechs e a transformação do mercado de seguros

Confira os insights da entrevista com Bruno Zangari e Omar Ajame

Seguros descentralizados, feitos sem qualquer intermediação e firmados por meio de um contrato inteligente armazenado em um blockchain; câmeras inteligentes que verificam por meio de inteligência artificial que o seu carro foi roubado; uma notificação no seu celular lhe avisando do sinistro e informando que o prêmio do seguro já foi transferido para a sua conta graças ao contrato inteligente.

Esse é uma visão ainda utópica do mercado de seguros, mas certamente o desenvolvimento de tecnologias como o blockchain e o avanço dos sistemas de inteligência artificial caminham em direção a transformações que nos aproximam cada vez mais desses cenários que lembram filmes de ficção científica.

Já é possível, porém, verificar a ocorrência de algumas mudanças que nos levam a esse horizonte disruptivo com o nascimento de várias insurtechs (startups de tecnologia no mercado de seguros) no Brasil. Veja, com este artigo:

  • O mercado de seguros brasileiro e as insurtechs
  • A tecnologia no setor de seguros, a TEx e outras insurtechs
  • Inteligência artificial no mercado de seguros
  • Blockchain para seguros e a descentralização
  • Ameaças e oportunidades: o que é maior?

Você pode ouvir esta conversa em nosso podcast, Get Insidly

O mercado de seguros brasileiro e as insurtechs

A atividade seguradora teve início, no Brasil, em 1808, com a abertura dos portos ao comércio internacional e a emissão da primeira apólice para cobrir os riscos das embarcações e das mercadorias.

Desde então o mercado já passou por uma série de transformações com a introdução de novos produtos e serviços para atender a diferentes demandas, contudo, via de regra, não foram feitos investimentos em tecnologia, o que resultou em sistemas defasados.

Tal conjuntura começou a ser modificada no exterior há mais de uma década com o surgimento e a atuação de insurtechs, que, segundo estimativas, receberam R$ 3 bilhões de fundos de capital de risco em 2017 e já respondem por 10% das vendas de seguros.

Esse é um movimento mais recente no Brasil e vem sendo financiado principalmente por capital próprio, mas já corresponde a 1% das vendas e é um setor que se expandiu mesmo em meio à recessão: desde 2014, as receitas aumentaram em média 10% ao ano e a participação no PIB cresceu de 2% no início dos anos 2000 para mais de 6% em 2017.

Além disso, o mercado de seguros demonstra ter um grande espaço para crescimento. O país responde por 2% de participação nos prêmios globais e é o 14º mercado segurador do mundo.

Uma expansão do mercado perpassa por uma mudança cultural, já que o brasileiro não tem o hábito de adquirir seguro – muitos ainda preferem não pagar por algo que idealmente não deve ser usado, principalmente quando os detalhes da apólice parecem complexos demais.

Somente 18% da população tem apólices, um percentual que contrasta com os países desenvolvidos. Ainda é preciso superar uma barreira e mostrar aos brasileiros a relevância e o impacto dos seguros.

A tecnologia no setor de seguros e as insurtechs

Além de ajustes nos produtos para atender às novas tendências sociais e demográficas, como a maior longevidade da população, as empresas do mercado de seguros evoluíram bastante nos últimos anos, tanto no processo de contratação quanto no do pagamento de sinistros.

O processo de incorporação de tecnologias, iniciado com as insurtechs, trouxe ao mercado diversas transformações. A digitalização, por exemplo, que engloba a digitalização de contratos e documentos, a assinatura eletrônica e o armazenamento seguro de dados trouxeram mais eficiência e integração aos processos.

Em entrevista para o Insidly, Bruno Zangari e Omar Ajame, fundadores da TEx, contaram que as primeiras ideias para o desenvolvimento do Teleport, o principal produto da empresa, surgiram ainda quando Omar trabalhava na empresa de seguros do pai e percebeu a enorme quantidade de tempo que os corretores gastavam para cotar um produto com apenas uma asseguradora. A ferramenta, hoje, permite que os corretores insiram as informações necessárias e façam a cotação do produto em diferentes empresas de uma única vez.

Esse é um exemplo de como as ferramentas de multicálculo, plataformas de vendas online e softwares de gestão incorporados no mercado de seguros trouxeram melhorias tanto para as asseguradores, que ganharam dados mais precisos para desenvolver inteligência de mercado, quanto para os corretores, que puderam, assim, deixar de se preocupar com processos excessivamente burocráticos e passaram a se dedicar mais à venda.

Os consumidores finais (compradores dos seguros) também ganharam com essa digitalização, já que a comunicação foi simplificada e se tornou mais efetiva e próxima, facilitando o entendimento não só das próprias necessidades, como também dos produtos ofertados.

A incorporação de tecnologias trouxe, assim, uma tendência à maior personalização da oferta com produtos mais voltados a públicos específicos, como seguros de vida para portadores de diabetes ou praticantes de esportes radicais.

Com tantas inovações, Bruno e Omar contam que se depararam com um dilema logo no início da TEx e perceberam que era preciso separar bem a área comercial da área de inovação, pois muitas decisões provocavam um embate entre a importância estratégica do desenvolvimento tecnológico versus a urgência comercial.

Inteligência artificial no mercado de seguros

Bruno e Omar concordam muito com a visão de Marc Andressen no texto “Why software is eating the world?”, pois acreditam que a partir do momento em que um software se torna capaz de ler um determinado dado, ele passa a ter potencial de mudar aquele mercado.

Como a inteligência artificial permite uma leitura mais ampla de dados, como imagens e emoções, ela traz esse potencial para uma gama enorme de setores, entre esses o de seguros.

A telemetria, por exemplo, que possibilita monitorar o comportamento de uma pessoa enquanto ela dirige com o registro de dados como a velocidade do veículo e o grau de risco do condutor, proporciona uma personalização ainda maior dos seguros.

Hoje paga-se o prêmio médio. Com o uso da telemetria, um condutor mais cuidadoso poderá pagar um valor menor, enquanto um condutor mais imprudente poderá pagar um valor mais alto.

Além disso, a riqueza dos dados, segundo os fundadores da TEx, pode causar um feedback loop, pois o comportamento das pessoas no trânsito poderá ser alterado graças à maior vigilância: uma pessoa poderia passar a dirigir com mais cuidado ao saber que está sendo monitorada, o que tornaria o trânsito mais seguro.

Essa personalização também levanta questões éticas, já que abre espaço para um comportamento discriminatório das assegurados, que poderiam utilizar tal precisão de informações para recusar um determinado cliente ou elevar demais o preço para um portador de uma determinada doença.

Outra preocupação que assola a sociedade e, principalmente, os corretores é a empregabilidade. Bruno e Omar acreditam que a inteligência artificial facilitará o trabalho exercido, expandirá a capacidade das pessoas e provocará mudanças, mas o componente humano ainda será fundamental, especialmente se questões como a importância do trato pessoal e regionalismos forem consideradas.

Blockchain para seguros e a descentralização

Embora o mercado já esteja realizando experimentos com blockchain, Bruno e Omar creem que o uso de inteligência artificial terá um impacto mais próximo no horizonte temporal, pois existem poucas experiências bem sucedidas de plataformas descentralizadas e também por questões culturais.

Segundo eles, o brasileiro é avesso a riscos, por isso é preciso ter uma instituição que lhe traga confiança. Ainda que empresas como Uber e Airbnb façam apenas uma ponte entre dois elos da cadeia, é possível recorrer a elas se algo der errado, porém o mesmo não é verdade em casos de descentralização como o Bitcoin.

Além disso, o mercado de seguros não pode ser resumido ao pagamento do prêmio e engloba um complexo conjunto de serviços, por exemplo guinchos e oficinas, que precisarão se adequar à descentralização.

Em suma, para a descentralização ocorrer, ainda é preciso que os riscos sejam mais previsíveis e o mercado como um todo esteja mais preparado.

Ameaças e oportunidades: o que é maior?

Por fim, para ambos os fundadores da TEx, o desenvolvimento tecnológico e sua aplicação no setor de seguros certamente traz muitas ameaças, porém também traz muitas oportunidades. Bruno e Omar consideram que essas inovações irão permitir a exploração de muitas espaços ainda não explorados.

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